Por que vítimas de racismo como Vini Jr são sempre culpadas? Evra explica o padrão

Evra compara caso de Vini Jr com sua experiência contra Suárez e revela padrão preocupante de culpabilização das vítimas de racismo no futebol.

A dança com a bandeirinha virou crime. A comemoração virou provocação. O gol virou culpa. Mais uma vez, assistimos ao teatro do absurdo onde a vítima de racismo se transforma em réu. Vinicius Jr. marca, dança, sofre insultos raciais e... quem é questionado? Ele mesmo. Patrice Evra conhece bem esse roteiro perverso.

O ex-lateral francês saiu em defesa do brasileiro após o episódio com Gianluca Prestianni, do Benfica, na Champions League. Como quem já passou pelo inferno e voltou para contar a história, Evra desenhou com precisão cirúrgica o padrão que se repete: primeiro vem o insulto, depois a negação, por fim a inversão de papéis. Segundo apurou o Jogo Hoje, essa dinâmica se manifesta em praticamente todos os casos de discriminação racial no futebol europeu.

O desabafo de Evra e a defesa de Vinicius Jr

"Vinicius ainda tem que ficar falando disso sem parar. Ele é o protagonista de uma situação que não deveria existir", disparou Evra em entrevista ao The Athletic. A frase carrega o peso de quem viveu na pele a mesma injustiça há mais de uma década.

O craque do Real Madrid marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre as Águias, no Estádio da Luz. Dançou. Celebrou. Fez o que todo jogador faz quando balança as redes. Mas para alguns, aquilo foi "provocação". Como se dançar fosse licença para ser chamado de macaco.

A matemática é simples e perversa: gol + dança + pele preta = provocação que "justifica" o racismo. Evra conhece essa equação de cor. Viveu ela contra Luis Suárez em 2011. Viu ela se repetir com Vinicius em 2024. Quantas vezes mais precisaremos assistir essa peça?

O caso Prestianni: mais um episódio de racismo

Gianluca Prestianni se aproximou de Vinicius, tapou a boca com a camisa e soltou o insulto: "mono". Macaco em espanhol. Direto, sem rodeios, sem margem para interpretação dúbia. Kylian Mbappé e outros companheiros confirmaram. O árbitro foi acionado. O protocolo antirracismo entrou em ação.

Mas aí começou o teatro. Prestianni negou. José Mourinho culpou Vinicius pela comemoração. A UEFA suspendeu o argentino com base no código 14, mas a investigação segue em andamento. Enquanto isso, quem realmente sofreu o insulto continua sendo questionado sobre suas atitudes.

A lógica é doentia: o racista nega, a vítima vira suspeita. Prestianni se fez de inocente, enquanto Vinicius teve que provar que foi ofendido. Desde quando ser ofendido racialmente precisa de prova além da palavra da vítima?

Paralelo histórico: quando Evra enfrentou Suárez em 2011

Outubro de 2011. Liverpool versus Manchester United. Patrice Evra e Luis Suárez protagonizaram uma das polêmicas mais marcantes da Premier League. O uruguaio usou "palavras racistas ao menos 10 vezes" durante uma confusão na lateral do campo.

Evra relatou tudo ao árbitro. A Federação Inglesa investigou. Suárez foi considerado culpado, suspenso por 8 jogos e multado em 40 mil libras. Mas até chegar nesse desfecho, o francês passou pelo mesmo calvário que Vinicius enfrenta hoje.

"Quando defendi meu caso, eu disse: não conheço Luis Suárez o suficiente para chamá-lo de racista. Mas naquele momento, ele usou palavras racistas", relembrou Evra. A distinção é fundamental: não se trata de julgar a pessoa, mas de punir o ato.

O reencontro dois meses depois foi emblemático. Suárez se recusou a apertar a mão de Evra em Old Trafford. Ali ficou claro quem realmente tinha problemas com a situação. Só em 2015, na final da Champions entre Barcelona e Juventus, os dois finalmente se cumprimentaram.

O padrão perverso: por que a vítima vira culpada

Existe um roteiro macabro que se repete em casos de racismo no futebol. Primeiro, a vítima sofre o insulto. Segundo, denuncia o ocorrido. Terceiro, é questionada sobre suas próprias atitudes. Quarto, precisa provar que foi ofendida. Quinto, ainda é culpabilizada por "criar polêmica".

"Dizem: por que ele está dançando? Por que ele está provocando? Dão uma desculpa para alguém xingá-lo só porque ele está dançando depois de marcar um gol", explicou Evra. A lógica é invertida de forma grotesca.

Vinicius Jr. já enfrentou mais de 20 episódios de racismo desde 2018. Em cada um deles, parte da imprensa e da opinião pública questiona suas comemorações, sua personalidade, seu jeito de jogar. Como se existisse uma forma "correta" de ser negro no futebol europeu.

Evra resume com precisão: "Mesmo que seja você que diga o que aconteceu, as pessoas acusadas se fazem de vítimas". O racista vira vítima de uma "injustiça". A vítima vira algoz de uma "armação". O mundo de cabeça para baixo.

A responsabilidade de técnicos e dirigentes

José Mourinho cravou que Vinicius foi "responsável por toda a situação devido sua celebração". Um técnico experiente, que já comandou os maiores clubes do mundo, responsabilizando a vítima pelo racismo que sofreu. Isso diz muito sobre como o problema é encarado nos bastidores.

Dirigentes, técnicos e comentaristas precisam entender seu papel nessa engrenagem. Quando minimizam, relativizam ou culpabilizam as vítimas, alimentam o ciclo vicioso. Quando Mourinho aponta o dedo para Vinicius, legitima o discurso de que existe provocação que justifica racismo.

A postura deveria ser unânime: racismo é inaceitável, ponto final. Não existe "mas", não existe "porém", não existe "se não tivesse feito isso". A responsabilidade é única e exclusivamente de quem profere o insulto.

O que precisa mudar no combate ao racismo

O protocolo da UEFA funciona parcialmente. Prestianni foi suspenso com base no código 14, que permite punições imediatas em casos de discriminação. Mas a investigação se arrasta, enquanto o debate se concentra nas comemorações de Vinicius.

Precisamos de mudanças estruturais urgentes:

  • Punições mais severas e imediatas para casos comprovados de racismo
  • Educação obrigatória sobre discriminação para dirigentes, técnicos e jogadores
  • Campanhas que foquem nos agressores, não nas vítimas
  • Inversão do ônus da prova: quem acusa de "armação" que prove
  • Responsabilização de clubes cujas torcidas praticam atos discriminatórios

Evra teve que se controlar para não "dar um soco" em Suárez. Vinicius precisa sorrir enquanto é chamado de macaco. Até quando as vítimas terão que ser mais civilizadas que seus algozes?

O futebol europeu precisa olhar no espelho. O problema não são as danças de Vinicius. O problema é uma estrutura que ainda permite que jovens negros sejam humilhados por fazer aquilo que amam: jogar futebol e celebrar seus gols.

Perguntas Frequentes

Quantos casos de racismo Vinicius Jr já enfrentou na Europa?

Vinicius Jr. já enfrentou mais de 20 episódios de racismo desde que chegou à Europa em 2018. Os casos incluem insultos de torcedores, gestos discriminatórios e comentários preconceituosos de adversários em diferentes competições.

Qual foi a punição de Luis Suárez no caso contra Evra?

Luis Suárez foi suspenso por 8 jogos e multado em 40 mil libras (cerca de R$ 272 mil na cotação atual) pela Federação Inglesa de Futebol em 2011, após ser considerado culpado de usar palavras racistas contra Patrice Evra durante partida entre Liverpool e Manchester United.

Por que as vítimas de racismo são frequentemente culpabilizadas?

As vítimas de racismo no futebol são culpabilizadas devido a um padrão estrutural que busca justificar o injustificável. Técnicos, dirigentes e mídia frequentemente questionam as atitudes das vítimas (como comemorações ou provocações), invertendo a responsabilidade e criando a falsa ideia de que existe comportamento que "justifica" insultos raciais.

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