Morre Mircea Lucescu, lenda do Shakhtar e multicampeão com 38 títulos

Lucescu morreu aos 80 anos após longa carreira de 38 títulos, marca no Shakhtar e forte ligação com o futebol brasileiro.

Segundo apurou o Jogo Hoje, Mircea Lucescu morreu nesta terça-feira (7), aos 80 anos, em Bucareste. A cena tem aquele peso de quem atravessou gerações: quase 50 anos de profissão, uma prateleira de troféus e um nome que ecoa mais forte quando a bola rola no Shakhtar Donetsk.

Poucos dias antes do fim, ele ainda estava na ativa, dirigindo a seleção da Romênia na repescagem para a Copa do Mundo. Perdeu a vaga para a Turquia. Triste coincidência de calendário, daquelas que a gente tenta explicar com racionalidade e não consegue. Lucescu era internado no Hospital Universitário de Bucareste após ter desmaiado em campo no dia 29, durante um treino. E agora, como fica? Fica o legado, e fica a saudade do futebol que ele ajudou a desenhar.

A morte de Mircea Lucescu e a confirmação da informação

A confirmação veio com a notícia do falecimento em Bucareste. A hospitalização, iniciada no dia 29, foi precedida pelo desmaio durante um treino. A partir daí, o quadro de saúde se agravou e, em 7, veio o desfecho. Para quem acompanhou a carreira, não foi surpresa completa, mas foi choque do mesmo jeito: quando um cara desse calibre para, o mundo do futebol dá uma trancada no peito.

Quem foi Lucescu: carreira como jogador e treinador

Lucescu não foi um desses técnicos que surgem com fogos e somem na próxima temporada. Ele começou cedo, transitou entre papéis diferentes e manteve a leitura de jogo como arma principal. Como jogador, capitaneou a Seleção da Romênia na Copa do Mundo do México, em 1970, um marco que ainda aparece nos relatos de quem viveu aquela época. E tem curiosidade deliciosa: ele trocou de camisa com Pelé e, segundo contou, guardou a peça suja de terra, emoldurada em um museu.

Já como treinador, a trajetória atravessou Romênia, Ucrânia, Turquia, Itália e Rússia. Teve passagem por equipes como Inter de Milão, Galatasaray e Zenit, além de outros clubes que moldaram o olhar tático. Mas o roteiro mais conhecido, o que todo mundo recorda quando fala de futebol ucraniano, é o Shakhtar. Nele, Lucescu virou referência de método, de tempo de trabalho e de cultura competitiva.

O legado no Shakhtar Donetsk e a revolução com brasileiros

Foram 12 anos no comando do Shakhtar Donetsk, e o impacto não cabe só em números. Claro que cabe. São 38 títulos como treinador. Mas o que fez barulho foi o salto de identidade: Lucescu ajudou a transformar o clube em uma usina de oportunidades, com um olhar mercadológico que virou modelo em muitos lugares.

Ele “apadrinhou” jovens brasileiros e abriu caminho para uma chegada mais consistente ao futebol ucraniano. Não era só contratação por contratação. Era formação de elenco, leitura de perfil e aposta em talento com margem de crescimento. E a proximidade com o Brasil era tão real que ele chegou a estudar “brasileiro”, ainda em 2011, por conta das semelhanças entre romeno e português. Detalhe que diz tudo: quando você tenta aprender a língua do outro, você está dizendo “eu quero entender teu jogo”.

Na prática, vários atletas que se tornaram peças importantes passaram por essa rota. E a rota seguiu rendendo frutos mesmo depois. Quem viveu aquele período sabe: o Shakhtar ficou mais leve para negociar, mais agressivo no mercado e mais certeiro no encaixe de jogadores.

Os títulos mais importantes da trajetória

Lucescu fechou a carreira com 38 taças, número que o coloca entre os maiores vencedores da história do banco de reservas. E, quando a gente fala em títulos, a imagem que volta é a do trabalho sustentado, não aquele “pico” isolado de temporada.

Na sua passagem pelo Shakhtar, de 2003 a 2016, foram oito títulos do Campeonato Ucraniano, sete Supercopas da Ucrânia e seis Copas da Ucrânia. O capítulo continental também existe: uma Europa League em 2009, coroando a ideia de que o clube podia competir lá fora sem pedir licença.

Além disso, ele também acumulou conquistas em outros lugares, como Dinamo, Rapid Bukarest, Brescia, Galatasaray, Besiktas e Zenit, somando repertório e aprendizados que voltavam para o seu jeito de comandar. E tem mais: ele foi o terceiro treinador com mais títulos na história, atrás apenas de Pep Guardiola (40) e Sir Alex Ferguson (49). Comparar é inevitável, mas o que importa é o padrão: consistência.

A relação com o futebol brasileiro: Pelé, Maracanã e os jogadores do Shakhtar

Quem acha que a ligação de Lucescu com o Brasil se resume a “gosto por jogadores brasileiros” está perdendo a história de verdade. Ela começa antes do boom do qual todo mundo fala hoje. Em 1970, ele estava no México, capitaneando a Romênia. E é ali que surge a lembrança do encontro com Pelé, com a camisa guardada e virando memória material de um tempo em que a magia tinha cheiro de terra.

Depois, como jogador, ele também viveu o Brasil na pele. Em 1968, marcou gol na inauguração do estádio do Botafogo de Ribeirão Preto. No amistoso com a seleção brasileira, que terminou 6 a 2 para os donos da casa, ele marcou um dos gols. Mais tarde, em 1977, chegou a jogar no Maracanã e quase foi parar no Fluminense, mas um desastre natural em Bucareste mexeu com tudo e reescreveu o destino.

E tem o que ele disse sobre a Copa e sobre o clima dentro daquele Brasil “de época”. Ele lembrava da concentração com militares, da vigilância e da limitação de circulação, enquanto a seleção romena se sentia mais livre. O Mundial, para ele, era festa para o grupo. E para o Brasil, obrigação. Pergunta retórica? Como não entender, então, por que ele passou a admirar o futebol brasileiro com ainda mais intensidade depois daquelas experiências?

Comparação com os maiores vencedores da história

Em prateleira de grandes nomes, Lucescu entra com força. Comparar números é uma forma de encaixar uma carreira no mapa do mundo. Pep Guardiola tem 40 títulos, Sir Alex Ferguson tem 49, Carlo Ancelotti soma 30, José Mourinho tem 26 e Felipão também tem 26. Lucescu, com 38, fica bem no topo e deixa claro que não foi “um treinador de um clube só”, embora o Shakhtar seja o coração mais lembrado.

O que chama atenção, e isso a gente percebe olhando retrospecto, é que os títulos vieram com mudança de contextos. Ele adaptou ideias, lidou com ligas diferentes, atravessou culturas futebolísticas distintas e manteve a competitividade. Em futebol, isso é raro. Todo mundo quer resultado, mas pouca gente aguenta o processo.

O que fica de herança para a Romênia e para o futebol mundial

Lucescu deixa a Romênia com um legado de formação e identidade. Deixa o futebol mundial com um exemplo de profissionalismo que não depende de moda. E deixa para o Shakhtar Donetsk algo que vai além de troféu: um jeito de construir elenco, de negociar e de transformar a base em peça de jogo.

O que fica também é a lembrança humana do desfecho. Ele desmaiou em treino no dia 29 e morreu no dia 7. Entre os dois dias, houve vida de trabalho. E é justamente isso que faz a despedida doer: não é só a morte de um técnico. É o fim de um capítulo que atravessou épocas e costurou pontes com o Brasil.

Quando a bola muda de direção, o futebol segue. Mas a memória de Lucescu não muda. Fica a saudade, fica o respeito e fica a certeza de que, por mais que o tempo avance, o nome dele vai continuar sendo lembrado no jeito como o jogo evoluiu em lugares onde antes parecia impossível.

Perguntas Frequentes

De que morreu Mircea Lucescu?

Ele morreu aos 80 anos em Bucareste, após ter sido internado no Hospital Universitário de Bucareste quando desmaiou durante um treino no dia 29, com problemas graves de saúde.

Quantos títulos Mircea Lucescu conquistou na carreira?

Lucescu somou 38 títulos como treinador, sendo o terceiro com mais taças na história, atrás de Pep Guardiola (40) e Sir Alex Ferguson (49).

Por que Mircea Lucescu é tão ligado ao futebol brasileiro?

Porque sua ligação com o Brasil foi construída desde a época de jogador, com experiências como Pelé e o Maracanã, e continuou no período de treinador ao abrir espaço no Shakhtar Donetsk para jogadores brasileiros, além de demonstrar interesse pelo idioma e pela cultura futebolística do país.

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