Segundo apurou o Jogo Hoje, a disputa em torno da Copa do Mundo Feminina de 2031 ganhou um tempero financeiro que ninguém consegue ignorar. Cidades americanas que sonhavam com o torneio já começam a discutir desistência porque o custo do jogo parece estar sendo empurrado para o anfitrião, enquanto a Fifa segura as alavancas mais lucrativas do pacote.
O que está acontecendo com a candidatura de 2031
Estamos falando de um processo que, na prática, virou teste de caixa e de risco operacional. A proposta conjunta de Estados Unidos, México, Costa Rica e Jamaica segue como a única em discussão, mas o “clima de negociação” se deteriorou a ponto de Chicago e Pittsburgh, na lista de pretendentes, terem recuado. Quando duas praças que costumam vender evento grande começam a olhar para o lado e pensar “será que vale?”, é porque a conta chegou alta demais.
No pano de fundo, a Fifa adiou a confirmação das sedes da próxima edição e deixou a data no ar. E isso importa, porque a candidatura não vive só de estádio bonito: ela vive de calendário, de garantias governamentais e de um cronograma que permita fechar contratos antes que a temporada aperte.
Por que cidades dos EUA estão repensando a sede
O ponto de ruptura é bem objetivo: quem banca a parte mais pesada da estrutura e quem fica com o retorno. A Fifa tem insistido que os custos de segurança em torno dos estádios neste verão sejam arcados pelas cidades, enquanto retém receitas de transmissão, patrocínio e venda de ingressos. Em termos de gestão, isso altera o modelo de compartilhamento de lucros e desloca o risco para o lado do anfitrião.
Some a isso a parte que costuma dar dor de cabeça em cidade grande: transporte público, logística de fluxo e capacidade de manter a experiência do torcedor. Muitas cidades reduziram ou cancelaram Fan Fests oficiais, e o intervalo previsto é de 39 dias no torneio masculino, um parâmetro citado como referência para operação contínua. Se o operacional já custa caro no masculino, por que seria mais leve no feminino?
Além disso, existem obrigações que não são “detalhe de bastidor”. Sem as garantias necessárias do governo dos Estados Unidos sobre vistos, impostos, segurança e proteção, a US Soccer fica com um buraco de compliance no meio do caminho. E buraco de compliance vira custo extra, contratação emergencial e, no limite, atraso.
A experiência com a Fifa na Copa de 2026 e os pontos de atrito
Não dá para separar a candidatura de 2031 do que já aconteceu no ciclo anterior. Na Copa do Mundo masculina de 2026, o pacote exigiu que cidades sustentassem segurança e estrutura, enquanto o retorno comercial ficou mais concentrado na entidade. Para um orçamento municipal, isso é o tipo de assimetria que derruba margem e trava aprovação política.
Um exemplo citado é o Gillette Stadium, em Foxborough. A discussão sobre quem arcaria com os custos de segurança no entorno do estádio virou novela e só foi resolvida recentemente. E, mesmo depois desse aprendizado amargo, o local ainda aparece na disputa para sediar o Mundial Feminino de 2031. Isso é sinal de teimosia, ou é sinal de que ainda não encontraram alternativa melhor?
Do lado esportivo-operacional, o recorte de estádios também mostra como a Fifa tenta maximizar uso de infraestrutura. A US Soccer destacou 14 estádios americanos preferenciais dentro de uma lista de 20 opções, com outros 26 possíveis, totalizando 40 candidatos nos Estados Unidos. Sete desses 40 estádios também receberão jogos da Copa masculina de 2026, e a experiência com a Fifa não aparece como unanimidade positiva. Quando o mesmo elenco de arenas precisa rodar dois megaeventos sob a mesma lógica contratual, a conta volta em dobro.
E a questão de acesso exclusivo aos estádios é outro ponto que pesa no orçamento de oportunidade. Se o controle operacional limita receitas paralelas e exige janelas específicas, a cidade deixa de vender outras experiências no período. Em evento grande, isso é margem perdida, e margem perdida dói mais do que parece quando o contrato chega.
A alternativa que ganhou força: a Copa de Rugby de 2031
Enquanto a Fifa aperta o torniquete financeiro, o mercado reage. Algumas cidades passaram a olhar para a Copa do Mundo de Rugby masculina de 2031 como alternativa mais previsível, especialmente por causa da forma de conduzir o evento e da conversa comercial com o anfitrião.
Segundo o “The Guardian”, a World Rugby recebeu manifestações de interesse de 27 cidades, somando 33 estádios, com 20 deles também presentes nas listas ligadas ao futebol. O que atrai é a percepção de que existe mais liberdade comercial e menos exigências quanto ao acesso exclusivo aos estádios. Para quem está avaliando custos de segurança, direitos de transmissão e receita de patrocínio, previsibilidade vale dinheiro.
A World Rugby ainda reforça um modelo em que financia o evento e discute compartilhamento de lucros ou prejuízos com a USA Rugby, em vez de empurrar para o anfitrião a conta do torneio inteiro. E tem mais: a lista deve ser reduzida para algo entre 10 e 15 estádios via licitação, o que obriga cada cidade a decidir onde quer colocar seu nome e seu risco.
O argumento “na prática” já apareceu em Chicago. Uma partida entre Nova Zelândia e Irlanda atraiu mais de 61.000 torcedores no Soldier Field, com ingressos esgotados. Se o rugby consegue transformar demanda em resultado, por que o futebol feminino teria que aceitar uma estrutura mais cara e menos justa?
O que muda para a candidatura conjunta de EUA, México, Costa Rica e Jamaica
O impacto real para a candidatura conjunta é simples: quando cidades grandes recuam, a lista de locais preferenciais perde densidade e a engenharia do calendário fica mais complicada. A Fifa pode tentar segurar a narrativa com processo formal, mas sem garantias governamentais e sem alinhamento de custos de segurança, a candidatura vira um quebra-cabeça com peças faltando.
Em termos financeiros, o que muda é o poder de barganha. Se Chicago e Pittsburgh já deram o recado, outras cidades podem condicionar participação a termos mais claros sobre direitos de transmissão, receita de patrocínio e responsabilidades de proteção. E se a World Rugby reduzir o leque para 10 a 15 estádios, a migração de atenção vira competição por capacidade e por mídia.
Também pesa o calendário: com o torneio de rugby coincidindo com a temporada de futebol americano de 2031/32, a World Rugby ajustou períodos de acesso exclusivo, justamente para reduzir atrito com a agenda local. É uma lição de gestão para qualquer organizador: quem quer sediar precisa operar junto, não contra a cidade.
O Veredito Jogo Hoje
Aqui a gente não compra a desculpa de “processo normal”. Se a Fifa insiste em exigir custos de segurança, enquanto segura direitos de transmissão, receita de patrocínio e bilheteria, o recado para as cidades é cruel: o anfitrião paga o risco e fica com a parte menos previsível do retorno. Sem garantias governamentais e com acesso exclusivo aos estádios virando gargalo, a candidatura conjunta de 2031 corre o risco de perder pra uma alternativa que oferece modelo de compartilhamento de lucros mais claro. E quando a melhor proposta passa a ser a que respeita orçamento e logística, o futebol feminino precisa acordar antes que a prateleira vire vitrine do rugby.
Perguntas Frequentes
Por que cidades dos EUA podem desistir da Copa do Mundo Feminina de 2031?
Porque o pacote financeiro e operacional está desequilibrado: cidades enfrentam custos de segurança e exigências logísticas, enquanto a Fifa retém receitas de transmissão, patrocínio e ingressos, além de depender de garantias governamentais que nem sempre chegam antes do fechamento do processo.
Quais cidades já teriam recusado a candidatura?
Chicago e Pittsburgh aparecem como exemplos citados na cobertura do tema, com a justificativa ligada a exigências financeiras e entraves relacionados ao modelo de responsabilidades do anfitrião.
Por que a World Rugby virou alternativa para os organizadores?
Porque a World Rugby tende a oferecer mais flexibilidade comercial, menos limitações de acesso exclusivo aos estádios e um modelo em que financia o evento e compartilha lucros ou prejuízos com a USA Rugby, reduzindo o peso do risco para as cidades.