Arsenal virou potência sem atalhos — e o preço disso aparece agora

De 2019 à final da Champions, o Arsenal construiu um ciclo raro no futebol europeu. Os números mostram como o clube mudou de patamar.

Jogo Hoje acompanha futebol com lupa de processo. E a chegada do Arsenal à final da Champions League 2025/26 não parece um raio no céu: é a vitrine do que foi construído desde 2019, com escolhas que foram virando método dentro de campo. No fim, não é só sobre chegar à decisão. É sobre como o time aprendeu a vencer quando o jogo pesa e o calendário aperta.

A final da Champions como prova de um projeto

Uma final de Champions, com a primeira em duas décadas, costuma vir com narrativa pronta e atalhos fáceis. Só que o Arsenal está aí para desmentir essa preguiça. A equipe não virou potência de um dia para o outro; ela virou potência porque repetiu, treinou, corrigiu e sustentou ideias até elas virarem identidade coletiva.

O preço dessa evolução aparece agora: o time chega carregando regularidade competitiva, não só picos de rendimento. E quando a gente pensa em qual é o “segredo” do ciclo, a resposta passa por comportamento. Passa por transição defensiva mais organizada. Passa por bloco alto mais consistente, que não depende de sorte. Passa por pressão pós-perda aplicada com intenção, não só com vontade.

O ponto de partida: 2019, Arteta e Edu Gaspar

O Arsenal colocou a primeira peça no tabuleiro em julho de 2019 com a chegada de Edu Gaspar. Cinco meses depois, Mikel Arteta assumiu o comando. Desde cedo, a reconstrução esportiva foi encarada como obra de longo prazo, com troca de peças e também de mentalidade. E sim, teve dor. Teve resultado que queimou elenco e queimou confiança.

Quando o Arteta pegou o time no fim de 2019, a Champions já era passado imediato, e a sombra do período Wenger ainda incomodava. O torcedor queria troféu grande. O que veio foi outra coisa: base tática, rotina e uma tentativa firme de tirar o Arsenal do modo “quase”. Não deu para evitar tropeços. Mas deu para evitar desistência.

Os tabus quebrados contra o Big Six

O problema não era só ranking. Era trauma competitivo, especialmente contra os rivais do Big Six. Entre janeiro de 2015 e novembro de 2020, foram 29 jogos sem vencer esses adversários fora de casa. Fora do Emirates, a história virava um filme repetido: o Arsenal até tinha momentos, mas não tinha controle. Controlar é outra coisa.

Com Arteta, o “susto” virou regra. A primeira vitória no Old Trafford em 14 anos, com gol solitário de Pierre-Emerick Aubameyang, foi simbólica. Não só pelo número, mas pelo recado tático: o time parou de tratar jogo grande como evento, passou a tratar como plano. Em Stamford Bridge, o estigma também caiu. No Tottenham, a fila sem vencer em Premier League como visitante foi quebrada. E contra o Manchester City, aquele bloqueio que atravessou temporadas inteiras finalmente rachou.

O mais interessante é que o Arsenal não quebrou tabus apenas “ganhando jogos”. Ele quebrou tabus mudando comportamentos. O que antes era desorganização em transição defensiva virou estrutura. O que antes era bloco alto tímido virou bloco alto com coordenação. E, principalmente, a pressão pós-perda deixou de ser desespero e virou ferramenta.

Desde março de 2023 até agosto de 2025, mais de 840 dias, o Arsenal ficou 22 partidas sem perder para rivais do Big Six. Foram 13 vitórias e nove empates nesse recorte. E antes disso, a melhor sequência tinha sido de 17 jogos entre dezembro de 2002 e setembro de 2004. Então a pergunta fica inevitável: como um elenco em reconstrução chega nesse nível sem virar refém do acaso?

De coadjuvante a candidato anual: o salto competitivo

O ciclo também tem um lado que os números contam com frieza. Quando Arteta chegou, o Arsenal vinha de quinto, sexto e quinto nos campeonatos ingleses recentes citados. Nos dois primeiros anos, a fase foi pior: oitavo e ainda pior de pontos desde 1995/96. Ou seja, não houve “milagre de elenco”. Houve continuidade mesmo quando o barulho era ensurdecedor.

Enquanto isso, o clube foi reorganizando a tropa: saída de veteranos, chegada de jovens e consolidação de uma dupla que virou eixo do projeto. Gabriel Martinelli e William Saliba chegaram em 2019 e hoje são peça de base. E aqui a leitura tática pesa: elenco jovem só vinga quando o modelo dá sentido. Se o modelo muda a todo jogo, o jogador vira refém. Com Arteta, o jogador vira extensão do plano.

O salto competitivo ficou mais nítido quando o Arsenal começou a ser candidato anual. O time passou a disputar títulos com cara de quem sabe o que fazer nos detalhes. E isso é o oposto da “ponta de sorte” que muita gente tenta vender.

O dinheiro, os vices e a maturação do elenco

Em 2021/22, os Gunners fizeram o maior gasto do mundo no período citado: 165,6 milhões de euros. Ben White e Martin Odegaard entram como símbolos de uma decisão: investir para fechar lacunas que impediam regularidade competitiva. Odegaard já vinha emprestado um ano antes. E a aposta veio com um propósito claro: dar ao plano mais ferramentas para competir.

Mas futebol não paga boleto com “intenção”. A frustração veio na forma de quinta posição, mesmo com Tottenham quarto a apenas dois pontos e um North London Derby com vitória por 3 a 0 na 36ª rodada. Mesmo assim, o Arsenal seguiu. E aí vieram dois vices para o Manchester City e, na temporada seguinte, outro segundo lugar. Foram golpes repetidos, inclusive com a pecha de “pipoqueiros” quando o time liderava por mais rodadas e escorregava.

Só que o elenco amadureceu. O crescimento não foi linear, mas foi real. Até porque o Arsenal também viveu a fase em que o adversário parecia “amarrar” o time: três vices em sequência e, na última temporada, um novo Liverpool com Arne Slot mudando a régua do jogo. Ainda assim, na atual temporada, o Arsenal chegou com liderança por praticamente toda a campanha, com quedas e respostas que lembram que o modelo não desmancha quando dá errado.

O ponto de virada recente foi quando a equipe passou a ser criticada por suposto futebol físico pouco vistoso e, ainda assim, reagiu. Vitórias marcantes sobre Newcastle, Fulham e até o Atlético de Madrid vieram com leitura de partida e gestão emocional. E na Europa, a prova do que a ideia sustenta apareceu: 3 a 0 sobre o Real Madrid nas quartas de final da temporada seguinte.

A temporada atual: liderança, pressão e resposta

Agora o Arsenal está com 5 pontos de vantagem e com 1 jogo a mais que o Manchester City. A pressão muda de cor quando você lidera. E liderar não é só vencer: é vencer mantendo o desenho. Se o modelo é bom, a equipe consegue retomar o controle quando o jogo vira bagunça. Foi isso que o Arsenal mostrou.

O cronograma também ajuda, mas não resolve sozinho. O time encara West Ham, Burnley e Crystal Palace, com Burnley já rebaixado e Crystal Palace brigando em outra frente. Mesmo assim, o detalhe tático continua: como o Arsenal se comporta sob pressão e como protege o corredor central quando o adversário tenta acelerar a transição ofensiva?

Na Europa, o calendário pede mais: a decisão europeia está marcada para 31 de maio. O rival sai de Bayern de Munique ou PSG, e tanto um quanto outro exigem respostas diferentes. O Arsenal, porém, chega com uma base que não depende do adversário: depende do que ele consegue fazer quando tem a bola, quando perde e quando precisa reagir. Transição defensiva e pressão pós-perda são as peças que mais valem em jogos desse tamanho.

E, no plano doméstico, existe um combustível extra: a última Premier League veio em 2004. A chance de encerrar um jejum de 22 anos está próxima, e isso muda até a forma como o time administra risco. Quem entende esse processo sabe que o Arsenal não está “esperando acontecer”. O Arsenal está empurrando o destino.

O que a campanha diz sobre o Arsenal de longo prazo

O dado mais revelador talvez seja o tempo. Foram seis anos sem Champions antes do retorno em 2023/24, com o time virando mais comum na disputa europeia de segundo nível e, inclusive, tendo sido vice-campeão em 2019 com Unai Emery. Ou seja: o Arsenal voltou para a primeira prateleira sem negar o caminho anterior. Ele usou a ausência como laboratório.

Quando voltou, não voltou pequeno. Caiu nas quartas para o Bayern de Munique na primeira tentativa. E, na temporada seguinte, já estava capaz de atropelar o Real Madrid por 3 a 0. Essa escalada não é só mérito de elenco. É mérito do modelo, que permite ajustes sem quebrar a espinha dorsal.

Hoje, o Arsenal pode ser tratado como potência consolidada? Na Inglaterra, sim, porque já virou referência anual. Na Europa, também, porque a maneira de chegar à final mostra maturidade coletiva. Potência não é só ganhar mata-mata: é sustentar comportamento por meses, anos e ciclos. É o tipo de regularidade competitiva que só aparece quando a equipe domina seus próprios princípios.

O Veredito Jogo Hoje

O Arsenal virou potência sem atalhos porque transformou ideias em rotina e rotina em identidade. A diferença entre um time “bom” e um time “grande” é que o grande não perde o mapa quando o jogo aperta: ele acelera a transição defensiva, encaixa o bloco alto na hora certa e usa pressão pós-perda como arma, não como desespero. A final de 31 de maio não vai coroar só uma campanha; vai carimbar que a reconstrução esportiva iniciada em 2019 finalmente virou poder real. E, convenhamos, agora o mercado vai ter que lidar com isso como fato, não como promessa.

Perguntas Frequentes

Por que a final da Champions representa uma virada histórica para o Arsenal?

Porque é a primeira final em duas décadas e, mais do que o troféu, confirma a consolidação de um modelo: o Arsenal chegou com regularidade competitiva e com comportamento tático que elimina parte do medo histórico contra rivais grandes.

Quais foram os principais marcos do projeto de Arteta desde 2019?

O início com Edu Gaspar em julho de 2019 e Arteta cinco meses depois; a retomada gradual do desempenho na Premier League; a quebra de tabus contra o Big Six; o investimento de 165,6 milhões de euros em 2021/22; e a evolução europeia com o retorno à Champions em 2023/24 até a goleada sobre o Real Madrid nas quartas da campanha seguinte.

O Arsenal já pode ser tratado como potência consolidada na Inglaterra e na Europa?

Sim. O time já se comporta como candidato anual na Inglaterra, e na Europa mostrou capacidade de sustentar princípios em fases decisivas. O recado está nos números contra o Big Six e na maturação coletiva ao longo do ciclo.

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