Segundo apurou o Jogo Hoje, a Itália voltou a tropeçar no caminho da Copa do Mundo e agora a FIGC precisa encarar o problema de frente. A terceira ausência consecutiva em Copas do Mundo não é só um capítulo ruim: é uma sirene tática, estrutural e cultural tocando no vestiário da Azzurra. E, como sempre acontece quando o ciclo desanda, a conversa migra rápido para o nome do técnico.
Gattuso entrou na lista de dispensas após a derrota para a Bósnia na repescagem europeia. Mas a pergunta que nós fazemos é outra: trocar o treinador resolve o quê exatamente, se a Itália segue sem identidade clara, sem intensidade consistente e sem um modelo que sustente solidez coletiva por longos períodos?
O tamanho da crise italiana: três Copas fora e a pressão sobre a FIGC
Três ausências consecutivas em Copas do Mundo criam um tipo de pressão que não costuma perdoar nem projetos mais organizados. A FIGC não está diante de uma simples troca de comando técnico; está diante de uma reconstrução tática do sistema inteiro. Porque quando a produção em alto nível falha, o que quebra primeiro costuma ser o “como”: a intensidade para pressionar, a forma de ocupar o espaço, a tomada de decisão na posse qualificada e a capacidade de reorganizar o time em transição defensiva e ofensiva.
O calcio, que já viveu de bloco médio bem escalado, de transições afiadas e de leitura coletiva, agora parece preso entre extremos: ora tenta controlar sem ritmo, ora tenta acelerar sem proteção. A consequência é previsível: o adversário encontra espaço entre linhas, a pressão alta vira exceção e a linha de três perde lastro quando o time precisa defender após perder a bola.
Daí a urgência: não é só “quem” vai comandar a seleção, mas “com qual modelo” essa seleção vai tentar voltar a competir até 2030. E isso nos leva ao ponto central da janela: quais perfis de treinador aceitam mexer no que realmente dói?
O que a seleção precisa corrigir além do treinador
Se a Itália quer voltar ao palco máximo, o diagnóstico precisa ser técnico, não apenas moral. A lista de correções passa por três pilares que se repetem em ciclos fracassados:
Pressão alta com critério, principalmente após perdas: não dá para “correr atrás” sem direção, tem que haver encaixes de primeiro e segundo combate para proteger o miolo.
Solidez coletiva com estrutura de bloco médio quando necessário: o time precisa saber quando baixar, como proteger o corredor central e como evitar que a transição ofensiva adversária vire castigo recorrente.
Posse qualificada que não vire teatro: controlar para progredir, não para adiar. A Itália precisa recuperar fluidez com ocupação racional, sem abandonar a organização sem bola.
O problema é que esses pilares não dependem só do discurso. Dependem do sistema, do treino e da cultura de execução. E aí entra o encaixe com o tipo de futebol que cada treinador consegue impor.
Pep Guardiola: o sonho quase impossível que mudaria tudo
Vamos ser diretos: se existe alguém que pode mudar a filosofia de jogo de um país inteiro, é Pep Guardiola. O treinador passou por Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City, sempre com uma obsessão clara por dinâmica coletiva, posse com significado e ajustes finos de posicionamento. E, taticamente, ele é o tipo de técnico que transforma posse qualificada em arma, não em maquiagem.
O detalhe que interessa para a Itália é que Guardiola não trata o jogo como “um plano”. Ele trabalha com princípios que viram automatismo: como pressionar por gatilhos, como reconstruir após perda, como formar superioridades em setores e como manter o time competitivo em diferentes fases. Para uma seleção que sofre com instabilidade de intensidade, isso seria um upgrade brutal.
O entrave é lógico e contratual: Guardiola tem contrato com o Manchester City até junho de 2027. Largaria um projeto de longo prazo para encarar o risco de um ciclo em crise? Também não é difícil entender o “por quê não”. Por outro lado, se a FIGC realmente quer mudar o jogo, por que não tentar o impossível?
Guardiola já sinalizou desejo de comandar uma seleção em Copa do Mundo. E a Itália, tetracampeã, é um desafio com peso histórico. Só que aqui vai a leitura tática mais fria: a missão não é só “levar tática moderna”. É aceitar uma reconstrução tática ampla, com pressão alta com disciplina e solidez coletiva sustentada por posse qualificada. Se ele topar, muda tudo. Se não topar, vira apenas tentativa.
O cenário é mínimo, mas o impacto seria máximo. É isso que torna Guardiola o nome mais sedutor e, ao mesmo tempo, o mais improvável.
Gian Piero Gasperini: a aposta de identidade e reformulação
Se Guardiola é o sonho de uma transformação total, Gian Piero Gasperini é a aposta de identidade com reformulação. E isso, para uma seleção que precisa recuperar “calcio” sem ficar presa no passado, faz sentido. Gasperini é italiano de raiz, conhece a cultura do futebol local por dentro e por fora, e tem um histórico que não depende de sorte: ele impõe um estilo.
O ponto tático mais relevante é o desenho do jogo da Atalanta: futebol ofensivo, fluidez tática e gosto pela posse em zonas agressivas, mas com uma lógica de intensidade que não pede desculpas. Em 2023/24, Gasperini levou a Atalanta ao título inédito da Liga Europa. Isso não é troféu decorativo; é prova de capacidade de sustentar pressão e tomada de decisão sob estresse.
Agora, tem o encaixe de contexto: Gasperini tem vínculo com a Roma até junho de 2028. A seleção poderia aproveitar essa janela de negociação e transformar a “mudança” em oportunidade real de reconstrução. Só que o obstáculo é de postura. O próprio Gasperini já indicou resistência ao comando da seleção, citando que o sucesso italiano depende de uma “reformulação completa”.
Em outras palavras: ele toparia se a FIGC aceitar a natureza do problema. Não dá para pedir que ele ajuste detalhes enquanto o resto do sistema segue sem intensidade e sem solidez coletiva. Gasperini quer mexer no todo. Se a federação estiver disposta, ele pode colocar a Itália de volta em ritmo de jogo: pressão alta com um plano, transição ofensiva com direção e um bloco médio que não desmancha quando a partida vira.
O cenário aqui é diferente: mais plausível do que Guardiola, porém dependente de uma conversa séria sobre o tamanho da mudança.
Antonio Conte: o favorito mais realista para 2030
Entre os rumores, Antonio Conte aparece como o favorito mais realista. E não é só “nome forte”. É perfil tático que já conversa com problemas típicos de seleções em crise: organização sem bola, leitura de jogo e capacidade de impor estruturas mesmo com pouco tempo de trabalho.
Conte tem contrato com o Napoli até 2026/27, mas já disse estar “lisonjeado” com a possibilidade de voltar à seleção. Ele comandou a Itália entre 2014 e 2016, após eliminação na Copa de 2014. Teve tempo de consolidar base, passar por eliminatórias e chegar a desempenho competitivo na Euro, mesmo com tropeços pontuais em amistosos.
O que mais pesa para 2030 é o estilo. Conte carrega uma linha de três que vira identidade quando o time tem alas incisivos e consegue proteger o corredor central. Na defesa, ele trabalha com uma marcação compacta, com pressão alta em momentos chave e, principalmente, com solidez coletiva como regra. Em posse, a Itália ganha amplitude e objetivos claros para progredir, sem perder estrutura.
O risco? Conte é conhecido por sair no meio do caminho quando o projeto não encaixa. E seleções exigem paciência de ciclo, não só picos de performance. Ainda assim, em termos de reconstrução tática com execução rápida, ele é o tipo de treinador que entrega.
Tradução para o campo: se a Itália precisa de intensidade com disciplina, bloco médio bem posicionado e transição ofensiva com primeira ação organizada, Conte tende a ser o caminho mais direto. A missão “completa” exigiria aceitar que a FIGC terá que dar base e continuidade, e aí sim o desenho dele pode virar ciclo.
O que a escolha revela sobre o futuro do calcio
A renúncia de Gabriele Gravina e a eleição do sucessor em 22 de junho colocam a FIGC em modo de decisões. Quando a cúpula muda, a pergunta inevitável é: a Itália quer apenas um técnico novo ou quer um futebol novo? Porque o futebol que funciona em 2030 não nasce de nostalgia, nasce de princípios treináveis e de uma estrutura que sustente pressão, posse qualificada e solidez coletiva em escala.
Guardiola representa a ambição máxima: posse qualificada, leitura de jogo e ajustes que transformam o time em máquina de superioridade posicional. Gasperini representa a identidade agressiva: intensidade com lógica ofensiva, transição ofensiva com alma e um modelo que pode resgatar emoção sem abrir mão de organização. Conte representa o pragmatismo tático: linha de três, proteção e agressividade com controle.
O futuro do calcio vai aparecer no tipo de escolha que a FIGC fizer. Se for só troca de rosto, a Itália repete o padrão de sempre. Se for aceitação de missão completa, aí sim a reconstrução tática vira projeto e não remendo.
O Veredito Jogo Hoje
Não existe “técnico salvador” que faça milagre com o mesmo problema de intensidade, organização e estrutura. A Itália precisa de alguém que aceite mexer no modelo: quando a pressão alta é improviso, a linha de três vira gambiarra defensiva, e a solidez coletiva desaba; quando a posse qualificada é lenta, a transição ofensiva não chega com força e o bloco médio vira convite. Por isso, para nós, a missão completa só tem um nome com viabilidade de execução no curto e médio prazo: Conte. Guardiola e Gasperini seriam revolução, mas a FIGC precisa de reconstrução tática com chão, não só com ideia.
Assinado: Analista Tático do Jogo Hoje.
Perguntas Frequentes
Por que Gattuso deixou a seleção italiana?
Porque a Itália sofreu mais uma eliminação no caminho da Copa do Mundo, com derrota para a Bósnia na repescagem europeia, resultando na terceira ausência consecutiva da seleção no torneio. Com isso, Gennaro Gattuso entrou na lista de dispensas e a FIGC passou a avaliar substituição para o próximo ciclo.
Quem é o favorito para assumir a Itália?
Antonio Conte é o favorito mais realista no momento. Ele já teve passagem pela seleção entre 2014 e 2016, tem contrato com o Napoli até 2026/27, e seu estilo de linha de três, organização defensiva e capacidade de impor intensidade com estrutura conversa diretamente com as necessidades do ciclo rumo a 2030.
A Itália ainda pode tentar Pep Guardiola?
Pode tentar, sim, mas o cenário é muito difícil. Guardiola tem contrato com o Manchester City até junho de 2027. Ainda assim, taticamente, ele seria o nome mais capaz de transformar a filosofia do time com posse qualificada, pressão alta por princípios e solidez coletiva. A tentativa, porém, depende de vontade real de romper o projeto e de alinhar a missão completa.