Pioneiro franco-brasileiro da F1, Nano da Silva Ramos morreu aos 100 anos e foi recordista de pontos do Brasil por 14 anos.

O automobilismo perdeu uma memória viva. Nano da Silva Ramos, piloto franco-brasileiro e nome que atravessou décadas como quem corta o asfalto com manete firme, morreu aos 100 anos em Biarritz, na França, na última segunda-feira (4). E, quando a gente fala em Fórmula 1 dos anos 1950, a imagem que volta é a de um corajoso que não pediu licença para entrar na história.

Segundo apurou o Jogo Hoje, ele nasceu em 7 de dezembro de 1925, filho de pai brasileiro, e soube transformar essa dupla identidade em combustível. Porque, no fim das contas, o que ele fez foi representar o Brasil onde quase ninguém ainda acreditava que um brasileiro pudesse chegar com regularidade e respeito.

Luto no automobilismo: morte aos 100 anos em Biarritz

Em Biarritz, cidade que acolheu seu último capítulo, o eco é simples e cruel: um século vivido por um dos pioneiros do automobilismo. Nano não foi só “mais um piloto” de uma era distante; ele foi daqueles que ajudaram a pavimentar o caminho. E a morte, aos 100, fecha uma linha que parecia longa demais para acabar, mas acabou no tempo exato em que a gente menos queria perder.

Quem foi Nano da Silva Ramos

Hermano João da Silva Ramos, o Nano, começou a vida em Paris, mas decidiu que o esporte a motor seria o verdadeiro passaporte. Filho de pai brasileiro, virou piloto franco-brasileiro e, principalmente, um rosto raro na história da Fórmula 1 antes de a “presença verde e amarela” virar roteiro comum.

Entre 1955 e 1956, teve uma passagem curta, porém marcante: foram sete corridas oficiais na categoria principal dos monopostos. Já em Mônaco, em 1956, ele cravou um 5º lugar que valeu 2 pontos e virou referência para quem gosta de estatística com gosto de nostalgia.

A trajetória no Brasil, na França e em Le Mans

Depois da Segunda Guerra Mundial, Nano mudou-se para o Brasil e começou a jornada no mundo do esporte a motor em 30 de março de 1947, quando disputou o GP Internacional de Interlagos com um MG TC. O detalhe que fica na garganta do historiador é que ele não chegou a completar aquela corrida por problemas mecânicos, vencida por Achille Varzi, com Chico Landi e Gino Bianco completando o pódio.

Por quatro anos, ele viveu a base do sonho e a dureza do circuito. E então voltou à França para tentar de novo, com mais foco. Em 1953, com um Aston Martin DB2, venceu o Rali de Sable realizado no circuito de Le Mans. Em 1954, repetiu a ousadia ao vencer o Torneio de Velocidade de Montlhéry. E quando a gente vê esse currículo, dá para entender por que a 24 Horas de Le Mans virou destino, não acaso.

No mesmo ano, ele se tornou o segundo brasileiro a competir nas icônicas 24 Horas de Le Mans, sucedendo Bernardo Sousa Dantas, que ficou impossibilitado de concluir a prova por problemas. Nano, então, já entrava no ringue do endurance com a coragem de quem sabe que, ali, não basta ser rápido: é preciso ser inteiro.

A passagem pela Fórmula 1 e o feito histórico pelo Brasil

O ano de 1955 foi a virada. Nano fez a estreia na Fórmula 1 no GP dos Países Baixos, em Zandvoort, onde Juan Manuel Fangio venceu com a Mercedes. E, mesmo com uma trajetória que não se estendeu por muitas temporadas, o impacto foi desproporcional ao número de voltas.

Além de suas sete etapas oficiais entre 1955 e 1956, ele participou de oito corridas não oficiais entre 1956 e 1959. Mas o destaque que a memória guarda com carinho é o GP de Mônaco de 1956: 5º lugar, 2 pontos, no modelo T16. Um resultado que, na prática, colocou o feito em outro patamar.

O histórico, porém, é onde a gente percebe o tamanho do recado: ele foi o segundo brasileiro a pontuar na F1, depois que Chico Landi teve 4º lugar no GP da Argentina. Só que, naquele dia, Landi precisou dividir a pilotagem da Maserati com o italiano Gerino Gerini, e o regulamento da época mandava que cada competidor recebesse metade dos pontos. Por isso, Landi somou apenas 1,5. A estatística, fria; a história, quente.

Na sequência, Nano virou referência por 14 anos como o recorde de pontos brasileiro na categoria, até ser superado por Emerson Fittipaldi no GP da Alemanha de 1970, quando o então titular da Lotus acumulou 3 tentos ao receber a bandeira quadriculada em Hockenheim. Foi o fim de um reinado, mas não o apagamento de um marco.

Ferrari, Le Mans e a última corrida da carreira

A carreira de Nano também tem aquele charme de quem viveu o automobilismo por dentro, nos bastidores e nas curvas. Depois da morte do amigo Alfonso de Portago nas Mil Milhas de Brescia, em 1957, ele se afastou por alguns meses. Quando voltou, não voltou “morno”: foi para Turismo-Esporte e F2, com bons resultados em GPs de Pau e de Reims a bordo de um Cooper T45.

E aí veio um detalhe que explica o salto: a vitória nas 3 Horas de Pau, com a Lotus, abriu a porta para a Ferrari. O começo na equipe de Maranello foi difícil, como acontece com muita gente em transições, mas Nano reagiu rápido. Venceu no GP de Spa-Francorchamps, na Bélgica, e ainda fez terceiro lugar tanto no Tour de France quanto no Circuito d’Auvergne, sempre com o modelo 250 GT.

Em 1959, ele assumiu o volante da Ferrari 250 Testarossa ao lado do inglês Cliff Allison para competir nas 24 Horas de Le Mans. Nos treinos classificatórios, foi além: chegou a fazer o melhor tempo. Só que corrida é corrida, e no endurance o vento muda sem avisar. Depois de quatro horas completadas, veio problema no câmbio e o abandono. Foi a última participação dele em La Sarthe.

Antes disso, a passagem pela equipe Gordini já tinha mostrado a capacidade de brigar por vitória: ele conquistou quatro triunfos (Paris Cup 1955, Montlhéry 1955/56 e Tours 1956, além do contexto de suas corridas naquele ciclo) em 32 disputas, incluindo as 24H de Le Mans em 1955 e 1956 com o modelo T23. Inclusive, na primeira dessas edições, a prova foi palco da tragédia que vitimou 84 pessoas; Nano abandonou com problema no radiador. Às vezes, a história não permite final feliz, só permite lembrança.

A última corrida da carreira aconteceu quando tinha 35 anos: o GP do Rio de Janeiro, em novembro de 1960, na Barra da Tijuca. Pilotando um Porsche RS 1500, ele terminou em segundo, atrás de Mário de Araújo Cabral, conhecido por ter sido o primeiro português a competir na F1. Um fechamento de ciclo digno, quase cinematográfico para quem viveu o esporte no tempo em que a coragem era instrumento de trabalho.

Vida após as pistas e os homenagens tardias

Quando deixou o automobilismo, Nano não sumiu do mapa do mundo que ele ajudou a construir. Trabalhou na indústria audiovisual e na imobiliária por alguns anos, levando para a vida longe dos boxes o mesmo espírito de persistência. Com a esposa Nelly, mudou-se para Biarritz, onde viveu até o fim.

E, mesmo tarde, o reconhecimento chegou na forma de gesto que aquece: em 2012, foi convidado pelo Le Mans Classic para pilotar um MG 1936 aos 86 anos. No ano seguinte, entrou para o hall da fama do circuito de Le Mans. E em 2014 teve a oportunidade de conduzir o mesmo carro que pilotou há mais de sete décadas, um Aston Martin DB2. Pense nisso: voltar ao passado não é museu, é continuidade.

Legado de um pioneiro brasileiro no esporte a motor

Nano da Silva Ramos deixa um legado que não cabe só em placa, nem só em número. Ele foi um piloto franco-brasileiro que, em plena Fórmula 1 dos anos 1950, ajudou a abrir caminho para o Brasil. E, mais do que isso, sustentou por 14 anos o posto de recorde de pontos brasileiro, um tipo de marca que hoje parece simples, mas que na época era conquista de quem precisava aprender no erro e vencer na teimosia.

O que ele fez na 24 Horas de Le Mans com a equipe Gordini, o impacto do 5º lugar em Mônaco somando 2 pontos, a passagem pela Ferrari com a Ferrari 250 Testarossa, e a trajetória que começou no Brasil com um MG TC: tudo conversa com a mesma ideia. O automobilismo, quando é de verdade, vira história. E Nano foi história.

O Veredito Jogo Hoje

Nano não morreu apenas aos 100: ele fechou uma era em que o Brasil ainda era “aparição” na Fórmula 1. A gente costuma celebrar os grandes finais, mas esquece o trabalho de quem sustentou o começo. O recorde de pontos por 14 anos, o marco de ser o segundo brasileiro a pontuar e a coragem de atravessar Le Mans, Gordini e Ferrari provam que o legado dele não é detalhe de arquivo: é base. E, sinceramente, é obrigação nossa manter esse nome vivo, do jeito que ele merece.

Assinado: Historiador Nostálgico do JogoHoje.

Perguntas Frequentes

Quem foi Nano da Silva Ramos?

Nano da Silva Ramos foi um piloto franco-brasileiro e um dos pioneiros do automobilismo. Nasceu em 7 de dezembro de 1925, atuou em provas no Brasil e na Europa e teve passagem na Fórmula 1 dos anos 1950, além de participação marcante na 24 Horas de Le Mans.

Quantas corridas Nano disputou na Fórmula 1?

Ele disputou sete corridas oficiais de Fórmula 1 entre 1955 e 1956, além de participações não oficiais ao longo dos anos seguintes.

Por que Nano da Silva Ramos é importante para a história do automobilismo brasileiro?

Porque foi o segundo brasileiro a pontuar na Fórmula 1 e, principalmente, manteve por 14 anos o posto de recorde de pontos brasileiro. Além disso, sua atuação em provas como a 24 Horas de Le Mans ajudou a consolidar o Brasil no cenário internacional do esporte a motor.

📺

Onde Assistir Futebol Ao Vivo?

Consulte a grade completa de canais (Premiere, Globo, CazéTV) e saiba onde passará o próximo jogo.

Ver Grade de Canais

Compartilhe com os amigos

Leia Também