Na abertura da temporada de 2026, a pauta em Melbourne girou em torno de um detalhe quase “burocrático” aos olhos do torcedor: quantas baterias a Honda tinha em condições de uso. Só que, bastou um comentário fora do eixo para a história ficar mais séria. E, segundo apurou o Jogo Hoje, essa é a parte que realmente muda o jogo: a Honda admite que a própria reorganização interna atrasou o desenvolvimento da unidade de potência para 2026 e acabou contaminando a integração com a Aston Martin.
O que a Honda admitiu sobre o projeto de F1
Adrian Newey colocou o dedo na ferida com uma frase seca. Ele disse que a Aston Martin só teria entendido, de forma clara, que o alvo de potência e o cenário do projeto eram diferentes dos “anos de glória” associados à Red Bull, em novembro de 2025. Na prática, isso significa que a parceria começou com uma expectativa externa que não batia com a realidade técnica lá dentro da Honda.
Newey também detalhou como essa percepção teria nascido: em Tóquio, junto de Lawrence Stroll e Andy Cowell, após rumores indicando que a potência-alvo original não seria atingida na primeira corrida. E aí vem o fator humano que costuma ser ignorado quando só se fala em números: Newey apontou que grande parte da equipe original não voltou quando a atividade foi reiniciada.
Do outro lado, a Honda preferiu explicar pelo método. Koji Watanabe, presidente da Honda Racing Corporation, falou com mais frieza e menos espetáculo: a organização foi reconstruída, e a empresa tem uma política de rodar engenheiros entre projetos de automobilismo e outras frentes tecnológicas. Isso, por si só, não é “erro”. O problema é o timing e o quanto a Aston Martin tinha visibilidade disso quando assinou o acordo formal, em maio de 2023.
Por que a Aston Martin não sabia da real situação em 2023
Se o acordo foi anunciado formalmente em maio de 2023, a pergunta é inevitável: como uma mudança tão determinante para o cronograma não teria sido plenamente compreendida? Newey sugere que o conhecimento chegou tarde, e Watanabe chama de “mal-entendido” o que o mundo exterior interpretou como continuidade natural do projeto.
Há um ponto que, em F1, pesa tanto quanto um mapa de motor: quando você interrompe atividades e retorna com pessoas e prioridades novas, o que muda não é só o calendário. Muda a curva de aprendizado, a cultura de desenvolvimento e até a velocidade para diagnosticar problemas que, em teoria, deveriam aparecer cedo em simulação e pré-temporada.
Watanabe foi direto ao admitir que a Honda interrompeu as atividades na F1 no fim de 2021 e só retomou em 2023. Ou seja, existiu um intervalo real de reconstrução. E o retorno, segundo ele, não foi só “voltar ao trabalho”; foi reconstruir a casa.
Como a reestruturação da Honda afetou pessoas, prazos e desenvolvimento
O que a Honda descreve é um efeito dominó. Primeiro, o tempo: reconstruir organização levou mais do que o esperado. Depois, a mão de obra: muitos funcionários foram transferidos para outras áreas dentro da empresa, com foco em produção em massa de carros de rua, motocicletas, motos de corrida, foguetes reutilizáveis e até painéis solares. A piada do tema, em Melbourne, é divertida; o impacto na engenharia não é.
Com parte da equipe original não retornando por motivos pessoais, a Aston Martin passou a trabalhar com uma composição mais distante do “DNA” de F1 que a Red Bull simbolizava. Em termos táticos, isso costuma aparecer em dois lugares: na qualidade do feedback do dinamômetro para o chassi e na velocidade de convergência quando o problema muda de ambiente.
E tem o cronograma, que é onde a F1 não perdoa. Watanabe reconheceu que o desenvolvimento começou mais tarde do que os outros. Isso, somado à rotatividade interna de engenharia, explica por que a potência poderia até estar perto do alvo em simulação, mas ainda assim não entregar o comportamento esperado no carro real.
Onde está o problema técnico: vibração, dinamômetro e chassi
Agora chega a parte que separa narrativa de diagnóstico. Watanabe apontou um ponto específico: vibração. Nos testes no dinamômetro, a vibração estava em um nível aceitável. O detalhe crucial é que, ao integrar no chassi real, essa vibração fica maior do que nos testes de bancada.
Tradução para quem só quer entender o que acontece na pista: não basta “ter potência”. Você precisa casar o conjunto motor com o suporte mecânico, com a geometria de fixação, com o comportamento estrutural e com a forma como o carro responde sob carga. Se o problema nasce na integração, a unidade de potência não resolve sozinha.
Por isso a Honda insiste na cooperação estreita com a Aston Martin, tanto na unidade de potência quanto em conjunto com o chassi. É o tipo de problema que não aparece inteiro em simulação e nem sempre “se revela” com a mesma intensidade no dinamômetro. E quando aparece mais forte no carro, o tempo de correção encurta e a prioridade muda: primeiro estabilizar confiabilidade e integração; depois, extrair desempenho puro.
O recado tático é simples: 2026 e 2027 vão ser um campeonato de ajustes finos. Quem errar na interface motor-chassi perde ritmo de desenvolvimento, e quem perder ritmo perde posição no grid.
O que Aston Martin e Honda dizem sobre a parceria agora
Apesar do atraso e da percepção tardia, Watanabe quis fechar a porta do rótulo “romance quebrado”. Ele afirmou que a relação entre Aston Martin Aramco e Honda é boa e que a colaboração do time de desenvolvimento segue em funcionamento.
Ele citou lideranças e rotas de trabalho: Tetsushi Kakuda como líder do projeto da unidade de potência, Enrico Cardile pelo lado da Aston Martin, além do bom relacionamento entre ele próprio, Stroll e Adrian Newey. Em linguagem de bastidor, isso significa que as reuniões acontecem, as decisões são tomadas e a engenharia não está “trabalhando no escuro”.
Mas, claro, isso não apaga o que já passou. A fase de desenvolvimento foi desafiadora, e o próprio Watanabe reconhece que ainda há muito a fazer em confiabilidade e em liberar desempenho para 2026 e 2027.
O que observar em 2026 e 2027
Se você quer acompanhar a história como analista e não como torcedor, o foco deve ser onde a integração costuma denunciar problemas: estabilidade de funcionamento sob diferentes regimes, consistência de vibração e como a equipe evolui o pacote do motor junto com ajustes de chassi.
Em 2026, vale observar se a Honda consegue reduzir a diferença entre o que o dinamômetro “promete” e o que o chassi “revela”. Em 2027, a pergunta muda: a convergência chegou a um ponto em que o desempenho não depende de remendos? Porque, nessa fase, não é só potência. É eficiência de desenvolvimento.
E tem a comparação inevitável com os anos vitoriosos da Honda com a Red Bull. Só que agora o contexto é outro. A diferença entre “ter um motor” e “ter um sistema integrado que cresce junto” é o que define quem briga por título e quem vira laboratório.
Perguntas Frequentes
Por que a Honda reestruturou o projeto de F1?
Segundo Koji Watanabe, a Honda usa uma política de rodar engenheiros entre projetos de automobilismo e outras áreas tecnológicas, além de ter reconstruído a organização após ter interrompido as atividades na F1 no fim de 2021. Esse processo consumiu tempo e afetou a forma como o desenvolvimento para 2026 foi reiniciado.
Qual é o principal problema técnico entre Honda e Aston Martin?
A vibração. A Honda afirma que ela está em nível aceitável no dinamômetro, mas aumenta quando a unidade de potência é integrada ao chassi real. Por isso, a correção precisa envolver motor e chassi em conjunto, e não apenas ajustes na unidade de potência.
A parceria entre Aston Martin e Honda está em risco?
O que as declarações indicam é que a relação segue funcionando e que a colaboração de desenvolvimento está ativa. O risco, no sentido competitivo, não é romper vínculo, e sim perder tempo de evolução para estabilizar confiabilidade e extrair desempenho pleno em 2026 e 2027.