Alguns dias depois de Zak Brown jogar gasolina no debate ao cravar que a copropriedade de equipes na Fórmula 1 “compromete a justiça esportiva”, Mohammed Ben Sulayem resolveu dar o recado institucional. O presidente da FIA não só discordou: ele colocou um holofote no que realmente assusta por trás do negócio, o conflito de interesses travestido de estratégia comercial.
Segundo apurou o Jogo Hoje, o alerta mira menos a engenharia e mais a política do paddock. E, pra nós que acompanhamos bastidores, isso significa uma coisa: se a governança da FIA não cortar caminho cedo, o regulamento esportivo pode começar a ser influenciado por quem tiver mais “carimbo” do que mérito de pista.
A fala de Ben Sulayem e o recado da FIA
Ben Sulayem foi direto ao ponto quando questionado sobre o interesse da Mercedes em comprar parte da Alpine. A lógica dele é quase tática: não é o ato de ter participação que é automaticamente errado; é o motivo e o efeito colateral. Ele questionou, com sarcasmo fino, o que seria “o motivo certo” para entrar em copropriedade.
O problema, na leitura do presidente da FIA, aparece quando a intenção vira “travar o outro” ou “comprar influência” para mexer em decisões. Ele citou o risco de poder de voto em temas ligados a regras e ajustes, e isso é o tipo de gatilho que muda o clima de qualquer categoria. Não é teoria: é governança na prática, com gente tentando transformar participação societária em vantagem regulatória.
Por que a copropriedade virou tema sensível na F1
A Fórmula 1 sempre teve alianças, acordos de motor, pacotes de tecnologia e relações comerciais que se conversam o tempo todo. Só que copropriedade é outra camada. Você não está só coordenando trabalho: está criando uma malha de influência que pode atravessar escolhas sensíveis, como desenvolvimento de carro, planejamento de pilotos e posicionamento estratégico.
Hoje, o caso mais citado no paddock é o ecossistema Red Bull e Racing Bulls. As operações são independentes no papel, mas a influência da escuderia principal aparece em decisões que respingam na menor. A diferença é sutil, porém decisiva: quando a conexão societária vira “controle indireto”, o público enxerga, o rival sente e a FIA precisa agir para preservar o equilíbrio.
Em termos de bastidor, a discussão ferve por três motivos:
- Conflito de interesses potencial entre quem regula e quem compete, mesmo que a FIA mantenha separações formais.
- Poder de voto e capacidade de pautar discussões ligadas a regulamento esportivo.
- Risco de decisões passarem a atender mais a interesses de grupo do que ao que é competitivo para todos.
Isso explica por que a fala de Ben Sulayem repercute: ela não está dizendo “não façam negócios”. Está dizendo “se o negócio virar arma política, a categoria perde identidade”.
O caso Alpine: quem quer comprar e por quê
O pano de fundo é bem concreto. Flavio Briatore, conselheiro-executivo da Alpine, confirmou que existem quatro potenciais compradores para os 24% da equipe que hoje pertencem à Otro Capital. E, no radar, aparece Christian Horner, ligado a um grupo de interesses do entorno Red Bull, além da própria Mercedes.
O detalhe que deixa a situação mais “quente” não é apenas a porcentagem. É o encaixe no cronograma técnico. A Mercedes, segundo o contexto divulgado, passaria a fornecer unidade de potência para a Alpine a partir de 2026. Então a pergunta tática surge na mesa, sem pedir licença: se você já tem um braço industrial dentro do carro, por que não tenta também ter braço societário na operação?
Ben Sulayem puxou essa linha quando questionou a intenção por trás da participação. Ele não ignorou o interesse de mercado, mas cutucou a motivação: comprar para impedir que outros avancem? Comprar para ganhar influência quando o assunto é regra? Ou comprar para construir um projeto esportivo coerente, com risco dividido e sem distorção de poder?
Onde mora o risco esportivo e regulatório
Vamos ser frios. Uma copropriedade pode parecer só financeira. Só que a F1 não é um campeonato de planilhas: é um tabuleiro de decisões rápidas, com efeito dominó. Quando você mistura participação societária com decisões esportivas, o conflito de interesses deixa de ser hipótese e vira sistema.
O ponto central do risco é duplo. Primeiro, no campo esportivo: a influência sobre planejamento de piloto e prioridade de desenvolvimento pode se tornar assimétrica. Segundo, no campo regulatório: se houver poder de voto desbalanceado, o regulamento esportivo pode ser empurrado para um cenário mais confortável para quem controla mais de um ator do ecossistema.
E aqui entra o “lado esportivo” que Ben Sulayem mencionou. Na nossa leitura, ele está tentando evitar que a categoria vire um condomínio. Se perder esse fio, a tendência é crescer desconfiança entre equipes, fabricantes e a própria governança da FIA. Quando a confiança quebra, quem paga é o espetáculo.
O que isso pode mudar nos bastidores da categoria
O recado da FIA não é apenas para a Alpine e Mercedes. É um sinal de que a instituição pretende apertar a interpretação sobre o que é aceitável em copropriedade. E, quando a FIA mexe na interpretação, o paddock reage rápido: contratos são relidos, estruturas societárias são redesenhadas e “intenções” viram documento.
O efeito prático pode aparecer em três frentes:
- Mais escrutínio sobre como decisões são tomadas dentro de grupos com participação cruzada.
- Maior pressão por mecanismos de governança para reduzir conflito de interesses e blindar decisões regulatórias.
- Revisões de como a FIA avalia “é possível? é permitido? é a coisa certa a se fazer?”, como Ben Sulayem colocou.
Em paralelo, a corrida por participação societária pode esfriar. Se o custo reputacional e regulatório aumentar, equipes e fabricantes vão pensar duas vezes antes de transformar parceria em controle.
O Veredito Jogo Hoje
Na minha leitura, Ben Sulayem não está “contra negócios”; ele está contra o uso de estrutura de propriedade como alavanca política. Copropriedade pode até render sinergia, mas também fabrica sombra onde não deveria haver: influência, poder de voto e distorção de prioridades. Se a Mercedes entrar nessa dança com a Alpine num ciclo de unidade de potência já sensível, a FIA vai precisar ser mais dura do que é agora, porque o paddock vai tentar aproveitar cada brecha. E, quando a política começa a mandar mais que a pista, a F1 perde a gramática que a gente reconhece.
Perguntas Frequentes
Por que a FIA vê risco na copropriedade de equipes na F1?
Porque copropriedade pode ampliar conflito de interesses e criar condições para poder de voto influenciar decisões do regulamento esportivo, desequilibrando o jogo competitivo e corroendo a confiança na governança da FIA.
Quem está interessado em comprar parte da Alpine?
De acordo com Flavio Briatore, há quatro potenciais compradores para os 24% da Alpine que pertencem à Otro Capital. Entre os nomes citados no contexto estão um grupo ligado a Christian Horner e a própria Mercedes, que também tem conexão técnica com a Alpine por meio da unidade de potência a partir de 2026.
A copropriedade de equipes é permitida pela Fórmula 1?
O tema é controverso e depende de como a FIA interpreta as regras de governança e elegibilidade. Ben Sulayem indicou que a categoria analisa se a prática é possível e permitido, além de avaliar se é “a coisa certa a se fazer” dentro do espírito de equilíbrio.